terça-feira, 11 de outubro de 2016

Jornalistas questionam ligação entre Caixa e Arena Corinthians: "Esquisito"

Fábio Seixas e Rodrigo Capelo analisam reportagem da "Folha" que revela acordo sigiloso de R$ 400 milhões entre o banco federal e Odebrecht: "Falta transparência"

O jornal "Folha de São Paulo" publicou neste domingo uma reportagem revelando que a Caixa Econômica Federal socorreu a empreiteira Odebrecht na construção da Arena Corinthians. A polêmica ficou por conta da operação ter sido sigilosa e que o banco público já tinha ajudado na construção do estádio. 
O plano inicial é que o estádio custasse R$ 1,2 bilhão. O dinheiro viria de três fontes: R$ 400 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), em acordo que tem a Caixa como agente financeiro; R$ 400 milhões de aporte direto feito pela Odebrecht; e outros R$ 400 milhões de emissões de debêntures, que são títulos de dívida lançados ao mercado para captar recursos (alguém emite e vende, enquanto alguém compra e pega o dinheiro de volta com juros). Mas, secretamente, a Caixa comprou as debêntures da Odebrecht, colocando mais R$ 400 milhões. 
obras estádio Arena Corinthians Copa (Foto: Arena / Fifa.com)Arena Corinthians começou a ser construída em 2011 (Foto: Arena / Fifa.com)
O jornalista Rodrigo Capelo, da revista "Época", lembrou que a operação entre a Caixa e Odebrecht não é ilegal, mas questionou porque ela foi feita de forma sigilosa e porque o banco não quis esclarecer a negociação quando foi procurado pela reportagem da "Folha". 
- Não é ilegal a Caixa fazer uma compra de debêntures. Isso não é ilícito. Mas a Caixa em nenhum momento deixou isso claro. Inclusive eu mesmo vinha apurando essa história há algum tempo, e você procura registro na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), procura registro em associações e não encontra. Tem um site que mostra debêntures públicas na internet e nesse site também não há a escritura desse negócio. E a própria transição de passar pela Odebrecht e depois para a Caixa dá um sinal de que a Caixa estava tentando esconder isso. E quando o banco não se manifesta em relação ao assunto, piora ainda a situação da Caixa - afirmou.
Brasil e Croácia Arena Corinthians Copa do Mundo (Foto: Agência AFP )Arena Corinthians foi palco da abertura da Copa do Mundo de 2014 (Foto: Agência AFP )
O jornalista do Fábio Seixas, chefe de reportagem do SporTV, também se incomodou com a falta de transparência do negócio, que, segundo a "Folha de São Paulo", teve Marcelo Odebrecht, então presidente da empresa e que está preso há um ano e quatro meses, agindo diretamente para dar rapidez ao processo. Para Fábio, a ausência de explicação da Caixa sobre a operação abre espaço para pensar que houve influência política na transação. 
- É esquisito. Mas o mais preocupante para mim é a falta de transparência. Inclusive depois que a reportagem da "Folha", já com os documentos em mãos, já com a informação apurada, procurou a Caixa, que é uma instituição financeira pública, um banco público, ela alegou que essa operação é protegida por sigilo bancário e que não poderia dar explicações. Então isso nos dá margem para acreditar em ingerência política, em pressão de gente do Corinthians, em gente que é do mundo político, em gente que trafega pelos dois mundos, pela falta de transparência. A gente não ficaria sabendo dessa informação se a reportagem da "Folha" não viesse à tona. E nem depois que veio à tona, a Caixa Econômica deu explicação. Eu acho que a Caixa, que é uma das grandes investidoras do futebol, precisa vir a público explicar essa operação - disse Fábio. 
Torcida Corinthians (Foto: Marcos Ribolli)Torcida do Corinthians na Arena (Foto: Marcos Ribolli)
Rodrigo Capelo lembrou que parte do dinheiro viria de CID's (certificados de incentivos ao desenvolvimento), emitidos pela prefeitura de São Paulo, mas que o Ministério Público entrou com um processo contra essa operação, o que abriu um buraco na verba que seria captada.
- CID é um documento que a prefeitura emite em nome de alguém, esse alguém pode vender para uma outra empresa, e essa outra empresa usa esse documento para pagar menos imposto. Essa era a ajuda que a cidade de São Paulo ia dar ao Corinthians. A questão é que como o Ministério Público entrou com uma ação contra essas CID's, e tinha toda uma questão de se era legal ou não, essas CID's emperraram e não foram vendidas. Então a partir desse momento que os R$ 400 milhões não entraram, a Arena Corinthians teve que arranjar uma maneira de conseguir esse dinheiro. Foi com a emissão de debêntures - disse.
O jornalista da revista "Época" questionou a posição da Caixa sobre esconder o negócio, afinal, o dinheiro precisa voltar para o banco, que é público, mas ela não revela nada sobre como a operação foi feita. 
- Sobre a Caixa, a história de como tudo isso foi feito já sabemos com clareza. Agora temos que ver como que esse dinheiro vai voltar. Porque a Caixa comprou essas debêntures e esse dinheiro tem que voltar. Mas isso vai ser em quanto tempo? Com qual taxa de juros? Esses são os tipos de informação que o mercado coloca às claras, e que a Caixa não colocou. Tratando-se de dinheiro público, temos que ficar em cima para ter certeza de que esse dinheiro volta e volta com os juros cabíveis - concluiu. 

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